Victor Combothamnassis
Definir essa organização que pomposamente se rotula como “casa
de saúde mental para recuperação de dependentes de produtos
químicos proibidos”, neste ca¬so, é um eufemismo cretino.
Ela é um manicômio como outro qualquer. A diferença é
que lá só podem ser internados jovens viciados em drogas cujos
pais tenham condições de arcar com as despesas do custoso e
interminável tratamento.
O sanatório é dirigido pelo psiquiatra Hermógenes Cabral,
setenta e poucos anos, gordo, baixinho, cara redonda, olhos pequenos, óculos
de lentes grossas invariavelmente presos na testa. Ele se encontra neste momento
no seu luxuoso e bem montado gabinete - dentro de um impecável terno
Armani - sentado numa poltrona que mais parece um trono. Forrada em couro
preto, está num estrado de uns 10 cm. de altura, formando um piso mais
elevado, que é para colocar em destaque quem senta nela.
À frente, uma mesa grande, de jacarandá-preto e, sobre ela,
tudo o que se espera de quem faz questão de demonstrar o nível
de sofisticação do estabelecimento que dirige: quatro telefones,
um fax, um computador com monitor de tela plana - plasma de 25 polegadas,
cristal líquido; duas caixas de madeira clara; uma para pastas com
prontuários a serem analisados e outra para esses documentos seguirem
seu curso depois de despachados; um bloco de anotações emoldurado
em couro finamente trabalhado, canetas - uma delas Montblanc - e tudo mais...
Do outro lado da mesa, na frente do diretor, duas outras poltronas, também
forradas em couro, também luxuosas, mas primas pobres em relação
ao trono do doutor Hermógenes. Elas estão ao nível do
chão, isto é, 10 cm. abaixo do estrado. Sentados, alguém
que se apresenta como sendo o empresário paulista Norberto Caiambra
Toledo de Albuquerque e Albuquerque, 50 e poucos anos, carregando no colo
uma pasta da griffe Louis Vuitton, e ao lado, um acompanhante que ele apresenta
como seu irmão Fernando, talvez 35 anos. Ambos elegantemente trajados.
Fernando, olhar vago, parece estar distante. Norberto, ao contrário,
reflete no rosto cheio de esperanças a intensa ansiedade pelo que poderá
resultar dessa entrevista.
- O senhor veio ao lugar certo... mas chegou numa hora muito difícil
para nós: estamos com todas as vagas ocupadas... lamento dizer... -
diz doutor Hermógenes a Norberto, mal disfarçando o início
de um jogo duro com a visível intenção de valorizar o
seu negócio, ao mesmo tempo em que, calculadamente, ajusta os óculos
no nariz.
- Doutor Hermógenes, a situação é desesperadora...
e o senador garantiu que... - começa Norberto, aparentando grande preocupação
ao mesmo tempo em que passa ao dono do sanatório um cartão de
visita de alguém que deve ser muito importante, a julgar pelo frenesi
que se apossa do médico ao ler o nome escrito.
- ...mas, por outro lado... não posso deixar de atender a um pedido
do senador.... Eu acompanho o seu trabalho pela TV-Senado e... - corta doutor
Hermógenes, depois de olhar mais uma vez o nome no cartão.
-...e deve estar vendo a atuação dele naquela CPI, que é
a mais séria que já se instalou em Brasília! - interrompe
Norberto por sua vez.
... aliás, diga a ele que meu domicílio eleitoral é em
São Paulo.. - atropela doutor Hermógenes, excitado.
- ... o senhor vota em São Paulo? - quer ouvir de novo Norberto.
- ... e assegure ao senador que ele pode contar com o meu voto e o dos meus
amigos e sócios paulistas desde já... para a sua candidatura
a governador... ou qualquer outro projeto político que tiver... - insiste
doutor Hermógenes, obstinado.
Os olhos de Norberto se iluminam:
- ...o senador vai sentir-se muito honrado com esse apoio e...
O dono do sanatório parece nem ouvir o comentário:
- ....e diga a ele que eu e minha família gostaríamos muito
de conhecê-lo pessoalmente... Dê a ele meu cartão, meu
celular particular e diga que está convidado para jantar comigo quando
vier ao Rio. É só avisar...
Norberto, no mesmo embalo:
-... seria genial, porque...
Doutor Hermógenes não quer ouvir... só falar:
- ... e talvez possamos conversar de que forma eu e meus sócios poderíamos
ajudá-lo na campanha...
- Claro, claro!!! - concorda Norberto, entendendo aonde o médico-empresário
quer chegar.
- ...e ele poderia dar uma força para uns probleminhas que a gente
tem lá em São Paulo... - emenda com olhar cúmplice para
Norberto:
- Claro, claro... Uma mão lava a outra...
- Você também é empresário... você entende
das coisas... “Uma mão sempre lava a outra”!!!
Norberto já se sente dono da situação e, para fingir
emoção e contentamento pelo final feliz da “negociação”,
servilmente se levanta, debruça-se na escrivaninha, toma a mão
do diretor, a beija como se fosse a mão do Papa, aparentando grande
esforço para conter as lágrimas:
- Doutor Hermógenes, o senhor é um santo homem... - e procurando
disfarçar o sarcasmo - homens como o senhor fazem com que eu continue
acreditando na humanidade!
Fernando continua indiferente a toda essa conversa, mais interessado nos desenhos
que aparecem no monitor de plasma quando o computador está no estágio
de pausa: uma seqüência de cores e formas psicodélicas que
fazem ora subir, ora descer, ora rodar em círculos o logotipo do sanatório
“Casa de Saúde Mental Santa Giuliana”. Fernando aparenta
“viajar” com a curiosidade de uma criança na sua primeira
visita ao Planetário do Rio...
- Vou marcar para sexta-feira a primeira consulta de avaliação...
- diz doutor Hermógenes.
- Não poderia ser antes? - pergunta Norberto, impaciente.
- Poderia marcar para hoje...
- Seria ótimo porque assim...
- ... mas prefiro esperar mais dois dias. É que sexta-feira chega o
doutor Silvanah Protustactus, de Paris... - novamente interrompe doutor Hermógenes.
- O professor Silvanah? - indaga admirado Norberto sem, na realidade, ter
a menor idéia de quem seja esse personagem.
- É, ele mesmo. O professor Silvanah foi participar de um dos mais
importantes congressos internacionais de psiquiatria, o The International
Fórum for Psychoatry - the World´s First Internet Medical Journal.
Ninguém melhor do que ele para diagnosticar o problema do seu irmão
e determinar um tratamento seguro.
Alertada talvez por um dispositivo acionado com o pé por baixo da mesa
do médico, entra Rosaline, a copeira - uma escultura de mulher - uniformizada,
trazendo numa bandeja espelhada um bule de café, três xícaras
de fina porcelana e os correspondentes pratinhos, um açucareiro do
mesmo jogo das xícaras; uma garrafa de água mineral Perrier,
três copos altos de cristal e ainda uma caixinha - de madeira nobre
- contendo envelopes de açúcar e edulcorantes.
- Água e um cafezinho?- oferece doutor Hermógenes, como que
para encerrar o assunto, pois ainda tem uma reunião com um pessoal
do bingo.
- Aceito... - responde rápido Norberto, sentindo que o dono da clínica
já quer se ver livre deles; que por sua vez também estão
saturados
- Açúcar ou adoçante? - pergunta a copeira para Norberto.
- Por favor, sirva o café puro; eu tomo amargo mesmo; amargo como a
minha vida.... E um copo de água - responde Norberto, esforçando-se
para não demonstrar os instintos selvagens que a moça lhe despertam.
- E o senhor? - dirigindo-se agora a Fernando.
Este olha a mulher de relance; olhar fugaz... não responde nada e volta
ao entretenimento que o mantem absorto desde o começo: os arabescos
entrelaçados dançando na tela do monitor de cristal líquido.
A copeira agora serve o cafezinho do chefe: despeja o conteúdo de dois
envelopes de edulcorante, mexe o líquido com a colher e coloca a xícara
na frente de doutor Hermógenes; deixa a bandeja com o bule e a garrafa
de Perrier, faz uma mesura e se retira discretamente, balançando seus
belos quadris, até desaparecer pela porta.
Só Fernando não olha o cadenciado balanço desses quadris.
Ele continua totalmente entretido com o monitor.
- Doutor Hermógenes, o senhor não imagina o sofrimento do Fernando...
e o sofrimento que Fernando está criando para a família... Sem
contar os problemas que isso está provocando nos nossos negócios...
O senhor sabe que Fernando... - Norberto não consegue completar seu
lamento. É interrompido pelo médico, agora mais preocupado com
outro ângulo dessa questão:
- ...calma, meu caro... eu também sou psiquiatra... mas agora não
estamos no meu consultório... Primeiro vamos cuidar da documentação
para internar seu irmão. O problema de Fernando, quem vai analisar
e diagnosticar é o professor Silvanah... na sexta-feira, como combinamos.
A parte burocrática referente à internação o senhor
poderá tratar diretamente com a doutora Cláudia; eu vou fazer
a recomendação agora mesmo... Combinado?... Sexta-feira, então?...
Vamos marcar para 10 da manhã?... . Está bom assim?
- Doutor Hermógenes, o senhor é mesmo um santo! - e em tom reverente
mas esforçando-se para disfarçar o sarcasmo, Norberto arremata:
- ...homens como o senhor fazem renascer minha fé na humanidade!
O doutor Hermógenes levanta, estende a mão para as despedidas;
Norberto volta a beijá-la com sofreguidão.
- E não esqueça de transmitir meus cumprimentos ao senador...
Fale também do meu convite... - encerra o dono do sanatório.
Mas na hora da saída, surge um problema inesperado: Fernando quer levar
o monitor de cristal líquido de qualquer maneira. A muito custo Norberto
consegue fazê-lo desistir da idéia.
O dono do sanatório parece se divertir com a cena.
NA BOCA DO LOBO