NA BOCA DO LOBO

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Victor Combothamnassis

1

Encravada no alto de uma encosta montanhosa num recôndito lugarejo boliviano, próximo a Santa Cruz de la Sierra, capital do departamento de Santa Cruz, a sofisticada mansão parece escondida no meio da luxuriante vegetação em volta. Sem vizinhos, isolada do mundo, lembra uma maquete cenográfica esculpida a cinzel por mãos de habilidoso artesão. Um muro alto circunda essa construção - onde caberiam dois campos de futebol -, impedindo a visão do seu interior.
E a cerca de cinco fios eletrificados com 10 mil volts, além das seis guaritas ocupada permanentemente por atentos sentinelas no alto do muro tornam temerária a chegada de quem não for convidado.
Do alto desse platô descortina-se todo o vale até onde a vista al¬cança numa bucólica paisagem que se assemelha a um cartão postal. E particularmente nesse entardecer de céu azul, sem nuvens, que começa a ser tisnado de laranja ao pôr-do-sol no oeste, por trás das altas montanhas.
O acesso à mansão é feito através de dois pesados portões de aço, acionados do interior por mecanismos de controle remoto. Essa preo¬cupação com a segurança deixa clara a intenção do dono em fazer da propriedade uma fortaleza inexpugnável.
Mas quem acaba de chegar nessa tarde certamente é alguém já conhecido e esperado, pois os pesados portões se abrem à aproximação do carro, sem necessidade de qualquer anúncio. O visitante entra, desce do veículo e é recebido por um serviçal. Alinhadamente vestido, pele bronzeada, talvez uns 35 anos, olha em volta como para aguçar a memória.
Ele já estivera lá há um ano, no seu primeiro encontro com Germán Salvatierra, braço boliviano da Cosa Nostra. Não conhecia pessoalmente esse big shot do narcotráfico boliviano. Chegara com auxílio de contatos que garantiam estar ele autorizado a traçar novas rotas no transporte terrestre para o Brasil da droga produzida nesse país andino através da tríplice fronteira.
Isto é feito periodicamente para burlar a vigilância da Polícia Federal nas fronteiras do Brasil com a Bolívia, Paraguai e Argentina, e também para driblar eventuais barreira estabelecidas pelas autoridades no caminho até centros de distribuição e consumo do Rio de Janeiro e São Paulo.
As lembranças daquela primeira visita voltam à sua mente como num video tape. À sua frente e em volta, tudo se mostra igual nesses dois níveis perfeitamente aplainados no escarpado terreno. O primeiro é todo gramado, onde podem ser vistos um campo de mini-golf, duas quadras fast de tênis que servem também para vôlei e futsal, equipamentos de musculação.
Num outro ponto dessa área de lazer, uma piscina com formato octagonal, com cerca de 30 metros em seus pontos extremos, e outra menor, redonda, para crianças - ambas equipadas com aquecimento solar - e, em volta, um deck com cadeiras e espreguiçadeiras para banhos de sol; saunas seca e a vapor, banheiros, chuveiros, vestiários.
Próxima, uma área coberta para abrigar uma churrasqueira de cinco metros de comprimento com bancada em granito, mesas e cadeiras de madeira, armários, freezer, geladeira industrial. Os espetos da churrasqueira são acionados com controle remoto por um dispositivo elétrico graduado, com três opções de velocidade para fazê-los girar.
Num outro canto desse primeiro nível, um jardim florido margeia uma área em condições de acomodar pelo menos 100 convidados numa reunião festiva, em mesas com guarda-sóis e cadeiras brancas; um tablado redondo para pista de dança e, em frente, um palco para apresentação de shows ou discursos políticos.
Há um heliponto e, próximo, um espaço calçado com paralelepípedos para estacionamento de pelo menos 50 carros. E uma garagem coberta - uso exclusivo do pessoal da casa -, com 20 vagas.
O visitante volta a olhar para heliponto. Não tem como deixar de admirar o reluzente Bell 222 UT, biturbinado, prateado, do tipo que serviu para ser transformado no “Águia de Fogo” na conhecida série de televisão produzida nos EUA.
Ele já conhecia esse aparelho: o dia do seu encontro com Germán Salvatierra, um ano atrás, coincidiu com chegada desse que, pelo que assegura no seu site na Internet quem o fabrica, a Bell Helicopter dos EUA, é o “carro esportivo dos céus”.
E a única aeronave do gênero fabricada no ocidente a fazer um looping completo arremetendo para trás. Há uma outra, a MI-34, que foi a primeira a realizar esta acrobatica façanha, mas ela é de porte bem menor e passou a ser fabricada pela Russia, que tem mais superfície asiática que europeia.
O narcotraficante, naquela ocasião, mostrara-se deslumbrado ao olhar, embevecido, para a imponente estampa do seu mais novo objeto de desejo, fulgurante enquanto ainda acariciado pelos já distantes raios do sol que começava a sumir no poente.

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Essa sofisticada aeronave de 10 lugares - dois tripulantes e oito passageiros - acabara de chegar do Chile. Pertencera a Marco Antônio Pinochet, filho caçula do falecido ditador chileno, e fora roubada da luxuosa casa de veraneio que a família mantém em Los Boldos, 120 quilômetros a oeste de Santiago, capital do país.
O autor da façanha fora o ex-capitão argentino José Maria Echeberria, expulso da Aeronáutica do seu país quando descoberto seu envolvimento no desvio para o narcotráfico brasileiro de armas e munições destinadas às tropas que combatiam os ingleses pela disputa das Ilhas Malvinas. Ele estava a serviço da família Pinochet, como piloto, quando Marco Antônio e a mãe, Lucia Hiriart, foram presos por determinação da justiça chilena para explicar a origem dos 17 milhões de dólares depositados em paraísos fiscais.
E, a bem da verdade, oficialmente nada se sabe ainda sobre este assunto.
Esse ex-militar argentino, que conseguira fugir do seu país por estar respondendo ao processo em liberdade, aguardava apenas uma oportunidade. E esta chegou quando da prisão de membros da família Pinochet: aproveitou a ausência do caçula do ditador chileno para sumir com o helicóptero, pois este já havia sido encomendado há algum tempo por Germán Salvatierra, seu antigo cliente. Todos esses detalhes, nessa ocasião, eram contados em meio a gargalhadas pelo próprio narcotraficante.
A partir daí, o relato passa a ser feito pelo próprio Echeberria. Ele contara que, nesse mesmo dia, depois de abrir espaço deslocando poltronas e amarrando-as nos fundos, embarcou cinco tambores de 200 litros com querosene de aviação - combustível usado em aeronaves impulsionadas com turbinas - para garantir a autonomia necessária, e imediatamente rumou para o norte do país.
Pousou no deserto de Atacama, esperou o anoitecer e levantou vôo, sobrevoando a Cordilheira dos Andes até penetrar em território boliviano. Foi acompanhando o leito do rio Pilcomayo, voando a baixa altura para evitar os radares, desviou para o rio Guapay seguindo seu sinuoso traçado até chegar à foz do rio Piray, e seguiu por este até chegar a Santa Cruz de la Sierra, cidade localizada em sua margem direita, na região central do país.
O Bell 222 UT chegara para substituir o Esquilo vermelho 350 AS - B3, em poder de Salvatierra havia mais de um ano. Esse também excelente helicóptero monoturbinado fora comprado através da Helibras pela secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro para dar combate ao crime organizado. O preço foi de R$ 7,8 milhões, pago com recursos do governo de estado e da Secretaria Nacional de Segurança Pública.
Mas ficou pouco tempo no heliponto que a polícia carioca mantém na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio: num lance de audácia digno de um bem produzido filme de ação, um comando formado por cinco homens da favela Beira Mar, do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense - reduto de Fernandinho Beira Mar -, invadiu a área na calada da noite, rendeu os três PMs de serviço no local e levou a aeronave, e também as armas e os uniformes dos policiais. Estes foram deixados de cuecas, manietados e amordaçados.
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Mas o que o visitante gostaria mesmo de esquecer daquela visita anterior foi o sufoco que passou quando, em muita má hora - como ele mesmo define essa situação -, decidira aceitar o convite do anfitrão para acompanhá-lo no vôo de apresentação do Bell 222.
É que ele sabe que não será tão fácil assim tirar da memória um dia como aquele, que ficaria marcado para ser lembrado pelo o resto da sua vida...
É que nesse dia, o ex-militar argentino realmente decidira radicalizar. E então, para exibir os seus próprios talentos e acelerar os trâmites para sua contratação como piloto do novo dono do Bell 222, e ao mesmo tempo mostrar a este as potencialidades da recém-chegada aeronave, inclusive com alguns predicados sequer imaginados pelo próprio fabricante, engendrou um diabólico plano de vôo visual que, com absoluta certeza, jamais seria autorizado por autoridade de aviação civil de país algum.
Militar talvez sim mas, neste caso, teria que ser em tempo de guerra e, assim mesmo, no front de combate.
A decolagem até que fora sem maiores sobressaltos. Apenas a ramagem das copas das árvores vergando, empurradas pelo furioso deslocamento de ar das pás gigantes, davam uma idéia do que essa máquina seria capaz quando em fúria, se provocada.
O imponente Bell 222 de duas turbinas começou a elevar-se suave e graciosamente, levitando como uma pluma ao vento. Uma rápida guinada à esquerda até o helicóptero pairar a uns dois metros do leito do rio Piray, com a frente apontando para o oeste, no sentido do rio Guapay.
- É bom afivelar os cintos – alerta Echeberria.
Sábia recomendação. A partir desse momento, o Bell parece ganhar vida, transformando-se num potro selvagem. Mas, justica seja feita, o corrupto ex-militar argentino é um cavaleiro que entende bem deste bizarro tipo de rodeio aéreo: homem e animal mecânico dão a impressão de terem nascido um para o outro, tal a sua interacão.
A aventura dura, se tanto, no máximo uns 20 minutos, tempo que parecessem horas sem fim tanto para Germán Salvatierra como para o seu convidado. Respiração ora ofegante ora presa, a cada manobra radical ambos se agarram fortemente aos encostos das poltronas como que com medo de serem arremessados para o ar. Sentem a mesma sensação de vazio de quem desce vertiginosamente de uma gigantesca montanha russa, com o estômago dando a impressão de que vai sair pela boca.
Como furiosos tentáculos que se erguem querendo capturar o helicóptero, cortinas de água com mais de três metros de altura se levantam toda vez que o caudaloso e barrento rio é provocado com as barras de pouso, ora a da esquerda, ora a da direita.
De repente, à frente um perigo real aparentemente incontornável: duas paredes de rocha maciça erguem-se como muralhas nas margens do rio. A distância de uma dessas paredes para a outra equivale a mais ou menos dois terços da extensão das palas da aeronave. Quer dizer: seria necessária uma abertura de mais uns três metros para que o Bell 222, que avança com potência máxima, atravessasse paralelo à linha do horizonte. O desastre, para os passageiros, parece inevitável. Para o piloto, não.
Numa manobra brusca, quase chegando a um metro do início desse canyon, o helicóptero aderna para a direita uns 45 graus e, milagrosamente, supera o obstáculo quando tudo já parecia irremediavelmente perdido.
E se os dois passageiros estivessem de olhos abertos e parado de rezar nessa hora, notariam, apavorados, que mal sobraria um palmo de espaço de cada lado entre os extremos das pás e a rocha.
Mas mal dá tempo de ambos descruzarem os dedos para se refazerem desse sufoco. O piloto argentino, depois de cruzar as estreitas paredes da rocha equilibra a aeronave, aponta com a frente para o alto, quase que na vertical, e volta a imprimir potência máxima, como se seu destino final fossem as nuvens.
A uns quinhentos metros de altura faz bruscamente um looping para trás e arremete como se fosse mergulhar no rio. As águas, empurradas pela violênta ventania gerada por esse gigantesco ventilador, se abrem à aproximação do helicóptero, como conta a bíblica lenda da travessia do Mar Vermelho, quando Deus, a pedido de Moises, enviou fortes ventos para separar as águas e permitir a passagem do povo de Israel na fuga do Egito. O visitante nem sabe a razão dessa analogia passar pela sua cabeça nesse tormentoso momento. O que ele quer mesmo é que tudo termine.
A aeronave se estabiliza a menos de um metro do Piray, novamente adernar para a esquerda a fim de evitar a colisão que parece iminente diante do novo estreitamento das paredes laterais das margens do Rio.
Mais algumas manobras, inclinando ora para a esquerda, ora para a direita, seguida de vertiginosos giros como se fosse um pião impulsionado por um cordel e finalmente a apresentação aérea chega ao fim, para alívio dos dois passageiros, rostos lívidos e corpos banhados de suor.

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Voltando a si desse reminiscente devaneio, o visitante novamente se concentra na visão ao seu derredor nesse paradisíaco ambiente. Desta vez, o que mais chama a sua atenção é a presença ostensiva de uma dezena de homens de ternos e gravatas pretos e camisas brancas, portando pesadas armas de diversos calibres e usando aparelhos walkie talkie. Mas isso não chega a surpreendê-lo, Certamente há alguma razão para o reforço do esquema de segurança nesse dia. Afinal, seu poder está nas armas.
Ele agora observa o segundo nível desse terreno: um prédio luxuoso, de dois andares, ao qual se tem acesso por uma escadaria de mármore, como também de mármore são os corrimãos e as colunas que os sustentam. Todas as janelas dessa construção são gradeadas. Entre o alto da escada de seis lances e o portão de madeira maciça trabalhada, um patamar de quatro metros. Postados à porta, um de cada lado, dois seguranças, atentos e também fortemente armados.
O recém-chegado é conduzido ao interior da mansão. Lá, tudo lhe é familiar: o enorme salão do primeiro andar, com pé direito alto, é dividido em requintados ambientes, uma mesa oval com capacidade para reuniões com pelo menos vinte pessoas; uma mesa de bilhar; numa das paredes um equipamento de som - que inclui televisão de 50 polegadas com aparelho para DVD - de uns três metros quadrados que, quando em funcionamento, o equipamento aciona uma infinidade de luzes piscando, acompanhando o ritmo.
Tudo lá é de extremo requinte: sofás e poltronas forradas em veludo vermelho rodeando mesinhas; cristaleira; um bar com seis banquetas altas à frente de três prateleiras cheias de bebidas destiladas. Pesadas cortinas também de veludo, mas na cor verde esmeralda, estendidas até o chão evitam a entrada da luz natural em janelas com vidros espelhados.
Por uma escadaria de ferro com 15 degraus de madeira, o segurança guia o visitante até o segundo andar. Já no corredor de cima, ele pára e corre lentamente a vista de um extremo a outro: é a área residencial; oito suítes, todas alinhadas, separadas por uma passagem de 40 metros de comprimento por três de largura. Fixa o olhar no ponto central desse corredor: revê o quadro de quatro metros que vai até o teto, réplica do mural Incêndio na Floresta, do paisagista brasileiro Antônio Parreira; porque o estranho sabe que o original nunca saiu do Museu Antônio Parreiras, de Niterói, no Rio de Janeiro.
O segurança comprime um dispositivo camuflado num ponto desse quadro, e lentamente abre-se uma entrada secreta. Dentro desse compartimento onde acaba de entrar, ao contrário da vez anterior, o recém-chegado parece surpreso com a falta de nitidez do ambiente. Tudo está em penumbra. A única iluminação é natural e vem de um janelão que deixa entrever, a meia-luz, uma mesa grande onde há vários telefones, um computador, uma submetralhadora e um revólver que parece ser um Magnun 44 com diversos carregadores de munição; e os contornos de uma estatueta escura, de uns 25 cm, sugerindo a figura de um animal, talvez um cão. Tudo o mais é difuso.
Por trás da mesa, uma cadeira de respaldo alto voltada para a janela, não permite saber quem é que está sentado nela. Mas ele pressente que seu ocupante não é Salvatierra.
Essa pessoa está fumando porque pode ser vista sua mão esquerda segurando um fumegante charuto.
O recém-chegado fica parado no centro desse salão e observa, contrafeito, um segurança dirigindo-se com passos firmes até o homem sentado na cadeira para, depois de uma mesura, sussurrar-lhe algo ao ouvido.
O visitante se mostra perplexo, fixando o olhar para a cadeira, que por estar em contraluz, só fica visível em seus contornos, sem mostrar quem está sentado nela, ainda de costas para a mesa.