Alberto Abdalla
Fui o primeiro a receber os originais deste livro.
Confesso que não li e não gostei. Sou amigo do autor e respeito
o colega, mas é que além de jornalista e escritor, sou também
crítico literário e, portanto, tenho responsabilidades profissionais.
E estas me impõem uma apreciação sincera, honesta, que
excluem amizade e camaradagem com o autor. Por isso, antes de mais nada, lamento
dizer, mesmo sem ter lido: este livro é uma merda. Eu, se fosse você,
leitor amigo, nem pensava em ler e pediria meu dinheiro de volta.
Victor Combothanassis só não é o pior escritor do mundo
porque como jornalista consegue ser bem pior ainda. Mentiroso, cascateiro,
vendedor de fantasias inventadas e que conseguiram enganar não só
um jornal da importância de O Globo durante 37 anos - que chegou até
fazê-lo seu chefe de reportagem por um longo período -, como
também seus milhões e milhões de leitores.
A começar pelas entrevistas que ele diz que fez com 16 sobreviventes
de um acidente aéreo que teria acontecido nos Andes. Verdadeira farsa
que o Globo aceitou e publicou em sete capas de edições consecutivas
do seu segundo caderno e ainda vendeu a outros jornais, do Brasil e do exterior,
assegurando que eram exclusivas. Uma mentira, contada nessas dimensões,
termina ganhando foros de verdade. Em realidade, não houve nem sobreviventes
e nem mortos.
E nem houve esse tal de acidente aéreo. Ele inventou tudo! E não
é que terminaram fazendo até filmes e um monte de livros tendo
como tema essa mentira? Vejam só: apareceram até 16 caras dizendo
que eram os sobreviventes e escreveram um livro, que no Brasil foi publicado
pela Nova Fronteira. Isso é muita audácia!
Da mesma forma que também inventou, e já desta vez com a cumplicidade
do Globo, que fora o primeiro a atravessar a ponte Rio-Niterói no dia
da inauguração. E O Globo publicou essa mentira em artigo assinado
por ele na primeira página. Quanta bobagem, se a baía da Guanabara
nem tem ponte alguma para cruza-la. O pessoal ainda atravessa os carros de
barcaça.
E a sua audácia não parou aí. Ainda disse que se infiltrou
num braço da Cosa Nostra e percorreu, durante 40 dias, países
da América Latina para uma matéria sobre drogas. E não
é que O Globo a publicou numa série de sete reportagens? A quem
ele quer enganar? Será que Victor Combothanassis não sabe que
essa história de mafia foi inventada por Francis Coppola nas três
versões que fez do Poderoso Chefão?
E o balão King of Kings, que ele disse que, de tão grande, daria
para levantar um Fusca? Só ele que viu? Dê uma olhada na Internet
para ver como essa farsa foi desmascarada. E depois, para desmentir os outros
jornais, publicou uma foto desse balão numa edição colorida
do Globo. Mais uma farsa: o balão foi criado digitalmente pelo departamento
de arte desse jornal.
E essas reportagens que publicou de uma guerra de Yon Kipur, que teria acontecido
no Oriente Médio? Que guerra é essa se judeus e árabes
vivem em completa harmonia, desde a criação do estado de Israel
até hoje? Será que você não lê jornais?
E tem mais: com a cumplicidade do Globo, no seu afã de vender jornais,
não é que Victor Combothanassis inventou também um terremoto
em Manágua? Pobre Nicarágua, não bastassem seus problemas,
ainda tem que aguentar uma coisa dessas... Quando é que essa cidade
teve um terremoto? E não é que os demais jornais do mundo todo
embarcaram nessa canoa furada? Como esse louco ainda está solto? Cadê
o congresso que não abre uma CPI em vez de se preocupar com mensalões?
A audácia do autor deste livro parece não ter limite. Não
é que depois que saiu do Globo foi para os EUA fazer um jornal bilíngüe?
Conseguiu enganar experientes empresários da Flórida. E não
interessa agora dizer que essa publicação foi bem sucedida.
Isso é pura sorte. Como também enganou os donos de A Crítica,
o melhor jornal de Manaus, quando foi contratado para reciclar o departamento
de jornalismo. Claro que esse jornal aumentou a sua tiragem, mas isto é
conseqüências natural do esforço do próprio jornal.
E Victor Combo cobrou honorários em dólares. Pode Isso?
Fico impressionado com a credulidade dos leitores, tão lamentavelmente
enganados pelo farsante autor deste livro. A relação de mentiras
é enorme. Seria necessário um livro inteiro para relatar todas
elas, como aquela do chamado escândalo dos Motéis, em que ele
acusou o SNI de estar envolvido. E não que até o próprio
Roberto Marinho acreditou e o mandou passar 40 dias na Europa para evitar
represálias da ditadura?
E, falando em ditadura, quem não lembra o incidente internacional que
Victor Combo criou quando inventou um Urutu, tanque brasileiro, nas ruas de
La Paz para sugerir que o grande Presidente Figueiredo ajudara o coronel Natuch
Bush num golpe Militar? Hoje até na Internet tem esta notícia
mentirosa porque, alem de inventar esse coronel, ainda publicou uma entrevista
exclusiva com o personagem que criou e foi reproduzida pelas principais agências
internacionais de notícias, a começar pela UPI, que imaginava
uma agência de notícias séria.Vou parar por aqui, porque
não tenho estômago para relacionar tantas mentiras. São
muitas, durante 37 anos... mês após mês... ano após
ano. E todas publicadas no Globo...
NA BOCA DO LOBO